Indiana Jones e a Relíquia do Destino

O elo perdido


Pra mim, Indiana Jones é sagrado. 

Oi?

Sim, é isso mesmo que você entendeu. 

Assistir aos filmes dirigidos por Steven Spielberg e produzidos por George Lucas são verdadeiras experiências. Está tudo lá: ação, aventura e romance; comédia, drama e suspense; uma história bem escrita e desenvolvida e sequências de ação frenéticas e empolgantes. Até mesmo o ponto mais baixo da franquia, Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal, de 2008, tido como o último da série, possui essa magia - apesar de ser um tanto problemático, tenho que admitir. 

É um tanto decepcionante que Indiana Jones e a Relíquia do Destino, último lançamento de junho de 2023 e que promete, agora de fato, imagino, ser o último da franquia, seja somente bacana, com boa vontade. 

Ainda que o diretor James Mangold - realizador por trás de Logan, entre outros projetos - emule dignamente Steven Spielberg, concebendo grandes sequências de ação, misturando drama, comédia, suspense e romance e com uma boa história para contar - se ele conta bem é o que vou tratar aqui -, não consegue, porém, replicar a magia que o mestre por trás de Tubarão e Jogador Número Um trazia nas quatro produções anteriores. 

Mas o que é essa magia? É a perfeita união dos elementos que compõem uma narrativa cinematográfica somado ao que há de único na história, no caso de Indiana Jones é o próprio personagem, os coadjuvantes, e, claro, a aventura da vez. O problema desta quinta entrada da franquia é, ao assumir-se ser um último capítulo e fechar toda uma saga, além de, possivelmente, continuar o universo com uma nova protagonista, precisa trazer autorreferências e retratar o protagonista com os olhos nostálgicos do fã; nesse sentido, se nos três filmes clássicos Indiana era um heroi de ação, em O Reino da Caveira de Cristal torna-se lenda - com direito à poses e imagem intacta sempre (nem seu icônico chapéu fica sujo) -, e nesta quinta parte vira ícone, um mito - com a co-protagonista vivida por Phoebe Waller-Bridge fazendo as vezes de fã, como o espectador, já sabendo de seus grandes feitos e ciente da idade do personagem; em Star Wars, para falar de outra grande franquia que também conta com Harrison Ford em papel de destaque, em O Despertar da Força o papel da nostalgia e das referências é tamanho de que nem precisamos ver Han Solo em ação para que nos sintamos satisfeitos com sua participação, ainda que ele nem faça nada, a completamos com base no que já vimos e sabemos dele

Se o problema de …Caveira de Cristal e o protagonista com status de lenda seja a perda do senso de perigo, uma vez que Indiana Jones vira praticamente um super-heroi - com zero arranhões e sempre limpo, diga-se de passagem -, nesta quinta parte aumenta, com o próprio protagonista também ciente de sua importância - dessa forma, temos não só referências diretas dos últimos filmes, relembrando os feitos do protagonista, como o temos muitas vezes reagindo ao que lhe acontece ou suas façanhas incríveis - e mais acompanhando a história do que a vivendo, como se soubesse de que já não precisa mais fazer nada, já é um ícone, é eterno.

O tempo, falando nele, também é um dos vários tópicos apresentados que não é devidamente desenvolvido, sendo aberto, esquecido e retornando no final, de repente. De um lado, temos o fator idade, Harrison Ford com 80 anos de idade em cenas de ação, um tema trazido mais como fonte de piadas do que algo para o público refletir, do outro, a questão da aceitação do tempo. Indiana Jones, arqueólogo e profundo conhecedor de história, amargura estar esquecido uma vez que o que toma o imaginário da população seja o frenesi da corrida espacial e um sentimento de que cruzar a fronteira da terra é chegar ao futuro. já o nazista Jürgen Voller, o vilão interpretado por Mads Mikkelsen, é não só avesso ao presente, mas desgostoso com o passado,  lamentando a derrota e os erros dos nazistas. Contudo, se parece que será uma história que levará nosso protagonista a enfrentar suas próprias questões e fazer as pazes com o tempo, achou errado. O que se tem aqui é um personagem jogado no meio de uma aventura e que, ao final, chega a conclusão de que é hora de parar. 

O porquê dessas decisões? 

Não sei dizer. Pode ser devido ao roteiro, escrito à oito mãos (o que raramente é boa coisa), cortes na edição ou até as duas coisas ao mesmo tempo. A questão é, temos aqui um filme cheio de boas ideias que não funcionam em conjunto. Se em comparação com o capítulo anterior, a Anticítera, a tal relíquia do destino, é não somente mais interessante como objeto, mas também como motor para a narrativa, do que a Caveira de Cristal, tal como o antagonista da vez é mais bem desenvolvido e com motivações mais claras do que a espadachim soviética de Cate Blanchett (e sua óbvia peruca).

Em termos de ação, também há uma queda considerável a partir do início do segundo ato. Após uma estonteante sequência em um trem na abertura, temos logo em seguida uma fuga à cavalo em Nova York e uma cena de carro que faz jus ao trabalho de Spielberg. Contudo, após isso parece haver uma perda de inspiração, infelizmente. 

Apesar de tudo, não há como negar que a atuação de Harrison Ford como Indiana Jones novamente é uma experiência à parte, que hipnotiza, prende. Se ela é o suficiente para sustentar uma nova aventura, é outra história. 

Mas a trilha sonora do mestre John Williams…ela continua impecável, como sempre.


Por: Victor Braz

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