Critica: Mad Max - Estrada da Fúria
Ao contrário da trilogia com Mel Gibson, Mad Max - Estrada da Fúria (Mad Max - Fury Road, 2015) é um filme que vai direto ao ponto. Em time-line desconhecida, não sabemos do passado de Max Rockatansky, que vaga com seu V8 pelas ruas desertas do futuro pós-apocalíptico criado por George Miller, que volta a direção 30 anos depois de Além da Cúpula do Trovão (1985), onde trabalha toda sua mitologia, deixando para trás o que seus antecessores ecoavam de faroestes de vingança como Rastros de Ódio (1956) e até de Os Brutos Também Amam (1953), onde a pequena sociedade que vivia na refinaria de petróleo em A Caçada Continua (1981) admirava a Max e suas habilidades, que acaba se envolvendo nos problemas do local. Porém, Estrada da Fúria visa certas mudanças de paradigma. Enquanto em outrora era mais disperso, vemos aqui uma explicação mais ampla do ocorrido com a terra ao longo dos anos, com a acelerada urbanização e industrialização, a grande fissura por petróleo, os problemas com água, tudo hoje ironicamente tão real, é o ponto de ignição, e um dos temas centrais de Estrada da Fúria.
Para manter a ordem no caos, e usando de três locais, onde um precisa do outro, Immortan Joe (Hugh Keays-Byrne, o líder da gangue do primeiro longa com Mel Gibson) é quem comanda a cidade da água, que supre os três locais e seus habitantes mutantes. Com isso em mente, Imperatriz Furiosa (Charlize Theron) precisa dirigir um caminhão pipa junto á um comboio para ir a cidade do petróleo, no caminho, ela foge do objetivo, para levar um grupo de mulheres saudáveis e grávidas de Immortan Joe para os Vales Verdes, sua cidade natal aonde ficarão seguras. Alheio a isso, Max (Tom Hardy), que acabara de ser capturado e ter seu carro detido, e com uma tentativa frustrada de fuga, é usado como bolsa de sangue por Nux, um kamicrazy - jovens com expectativa de vida baixa que se pintam de branco e fazem missões quase suicidas a mando de Immortan - que quer mostrar sua importância ao líder. Pelas circunstâncias, os dois caminhos se cruzam e Max, em exercício de frivolidade, ajuda Furiosa a chegar em sua terra prometida.
Por mais que Max esteja no título, quem tem mais importância é Furiosa. A personagem vivida por Charlize Theron, também de passado nebuloso, porém, com mais influência na tirania do líder, sofre com seus dilemas, o que leva-a contrariar ordens e fazer o certo, em busca de redenção. E a situação de Max não é diferente. Com poucas falas e mais ação, o personagem de Tom Hardy não tem o mesmo carisma e o peso do original, porém, carrega consigo o drama de forma quase igualitária á Gibson, quase um anti-herói se visto por outro lado. Mas não há uma visão de Miller quanto ao maniqueísmo do protagonista refletido na película, e sim, várias ações cometidas para no final se formar uma opinião. Mas não se espante, Estrada da Fúria levanta sim questões até de caráter filosófico. Principalmente quanto a posição dos kamicrazy na trama. Devotos de Immortan Joe, uma espécie de deus a eles, completamente cegos com o desejo de que ao gritar "testemunhem!" e cometer um ato de certa forma sadomasoquista, irão aos "portões de Valhalla" e terão tudo o que sempre quiseram, fazendo valer a pena tal ato. E essa religião que George Miller criou no roteiro dá muito mais substância a história. E é completamente aceitável que haja uma crença para que o resto dos sobreviventes acreditem em algo que os façam se mover, como quando Nux se dirige á um altar composto de volantes e enxerga entre vários, um que lhe pertence. E essas questões são o que fazem Estrada da Fúria valer a pena.
E o arco de Nux, vivido por Nicholas Hoult é um dos melhores. Cego pelo que acredita, do ensejo de se sacrificar e ir para o paraíso que lhe é prometido é simplesmente excelente.
Mas a ação, que durante as 2 horas de duração é o que mais vemos em cena, não podia ficar melhor. Ao contrário das perseguições dos originais, como uma que durava 20 minutos, aqui vemos isso também, porém, com a inserção de alguns efeitos especiais. Gravado em locação e com efeitos na pós-produção, as longas sequências são as mais realistas possíveis. Longe dos extremos dos originais, onde Miller, também médico, usava de efeitos práticos nas perseguições, ou seja, explosões e batidas feitas nas hora e usava de suas habilidades que ganhou trabalhando com medicina para acidentes com dubles e outros contratempos. Todavia, as longas cenas de ação reais são sentidas. A artificialidade do CGI contra o prático é gritante. O peso dos carros, as explosões, tiros...Enfim, tudo faz diferença quando entram em ação. Ação essa que George Miller domina muito bem. O diretor parece estar surtado - da onde saiu um carro alegórico com um guitarrista cujo instrumento solta fogo? -, e aliás. todo o longa parece estar também. É uma ótima direção composta por extremos. A arquitetura dos carros e suas funcionalidades, veículos em cima de outros e que formam um automóvel muito maior, os diálogos, as perseguições, a ação em si...Parece que desde a trilogia com Mel Gibson o cineasta estava com essas ideias esperando á serem postas em prática e só agora pôde deixa-las fluir.
Em claras mudanças de paradigma, George Miller enfim teve uma chance que poucos conseguem: refazer sua obra e melhora-la. Datado, o primeiro Mad Max, marcado por fazer o gênero de pós-apocalipse ser conhecido e reconhecido, não é uma obra que sobrevive com o tempo. Porém, Estrada da Fúria faz a volta da série as telonas, revitalizada e com novas ideias, com mitologia mais explorada, e até com crítica social mais eficiente. Divertido e cheio de ação, o futuro pós-apocalíptico de Mad Max, como deixa claro em seu início, ao explicar as razões do mundo estarem nessa situação, com seus mutantes e o roqueiro da guitarra flamejante, nos aguarda, nas mãos de George Miller, claro. Nota: 10

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